domingo, 29 de novembro de 2009

MPB


Ney Matogrosso e suas metamorfoses

Cantor volta a encarnar o bom e velho Ney, ousado e pop, num projeto que subverte a indústria fonográfica.

Por Joana Nigro

Mais do que mero título de uma canção, "Inclassificáveis", nome do CD e DVD lançado em 2008, é um grande exemplo de como um artista consegue manter uma identidade através de belas transformações e inovações. Ney, com seus 67 anos e 36 de carreira, mostra, mais uma vez, porque é chamado de camaleão.

Vindo de projetos mais comedidos, como os dedicados a Carmen Miranda e Cartola, ele reacende sua chama, mostra um cantor provocante e ousado, onde aparece coberto de brilhos, que no decorrer do show se transformam em outros, a partir de cada troca em cena de adereços e peças. Uma recuperação do Ney “exótico” dos anos de 1970 e 80, época que encarnava um pavão misterioso andrógino e espalhafatoso.

E essa é a grande diferença entre o CD e o DVD. Embora banda e arranjos sejam os mesmos, o Ney do CD é mais suave (é perceptível a procura pelo comedimento) do que o artista performático e provocativo do palco. Mas, por mais que pareça não se vê ligação entre seu atual momento e o início da carreira, no Secos & Molhados. Há um frescor, um ar de coisa nova, de inspiração.

E esse frescor é segurado pelo belíssimo repertório, além da voz singular do cantor. As versões bolero-rock para a música “Veja bem, meu bem” de Marcelo Camelo e a forte faixa-título “Inclassificáveis” de Arnaldo Antunes são os grandes destaques de uma espinha dorsal formada por "O Tempo Não Pára" (Cazuza/Arnaldo Brandão), "Mal Necessário" (Mauro Kwitko), "Coisas da Vida" (Alzira Espíndola/Itamar Assumpção), "Ode aos Ratos" (Edu Lobo/Chico Buarque) e "Divino Maravilhoso" (Caetano Veloso/Gilberto Gil), músicas que, de alguma forma, tocam em temas sociopolíticos.

Mas nada traduz tão bem a filosofia de vida de Ney Matogrosso como o refrão da música Lema, de Carlos Rennó e Lokaua Kanza, que versa: “Envelhecer certamente com a mente sã / me renovando dia a dia a cada manhã / tendo prazer me mantendo com o corpo são / eis o meu lema, meu emblema, eis o meu refrão”. É a revelação de tudo ali representado.

O mais interessante é notar o movimento contrário que Ney realizou, pois, em geral, um álbum é lançado e depois passa a ser divulgado pela turnê. Neste projeto, decidiu primeiro estrear o show para depois entrar em estúdio e gravar as canções escolhidas, todas elas com uma pegada bem marcante de guitarras e violão, para depois lançar CD e DVD. Talvez assinalando o que há anos já se discute: o fim da indústria fonográfica tal qual nós a conhecemos.

A aproximação com o pop faz com que Ney consiga dialogar com esferas mais recentes da música brasileira. E revela que, fazendo jus ao nome do show, rotular seu trabalho continua sendo um desafio.


Nenhum comentário:

Postar um comentário