sábado, 21 de novembro de 2009

Espiritismo


A dedicação de uma vida toda

A história de quem sempre viveu no limite. Com um pé na terra e outro no além, Chico Xavier psicografou mais 400 livros, vendeu mais de 20 milhões de exemplares, mas doou todo o dinheiro, em cartório, a instituições de caridade.

Por Joana Nigro

Tenho um sério problema quando o assunto é livro, sou completamente viciada em biografias. Talvez por ser bastante curiosa, a idéia de ter em minhas mãos a história da vida de uma pessoa me fascina, e se isso tudo for escrito por um jornalista, é aí mesmo que me entrego de corpo e alma a essa paixão. E foi exatamente essa sensação que tive, quando depois de muito lutar, acabei me rendendo e levando pra casa aquele livro com uma capa bonita, uma foto sangrada de Chico Xavier com uma linda criança no braço. Só de olhar já senti uma paz e percebi, sem nem precisar ler uma página sequer, o que me aguardava.

Em As Vidas de Chico Xavier, publicado no ano de 2003, pela editora Rocco, Marcel Souto Maior, conta a trajetória de fé, sofrimento e trabalho do mais conhecido espírita do país, porém sem um distanciamento, só com a imparcialidade que se espera de um trabalho realizado por um jornalista. É possível perceber durante todo o texto o envolvimento do autor, ele está também vivendo aquilo, aquelas polêmicas e questionamento também mexem com ele, fazem com que a busca pelo esclarecimento da verdade cresça a cada capitulo e não apenas retratando e documentando.

Mas não se trata de um envolvimento emotivo, Marcel é movido a todo o tempo pela dúvida, pelo mito, o seu interesse é entender como aquele homem estranho, pequeno e frágil chega a escrever mais de 1 livro por semana, fala com os mortos, atrai multidões de pessoas, ajuda outras tantas e ainda anda de cabeça baixa, resignado, como se não tivesse noção do que se torno e o que representa.

As histórias e os depoimentos do livro são conduzidos num ritmo bem arquitetado, recheados de vai e vem no tempo, que consegue aguçar a curiosidade do leitor sem todo aquele tom de mistério que em excesso acaba se tornando irritante. Traz falas e depoimentos bem construídos, mas, com certeza, o maior trunfo de Marcel ao contar essa história, são os diálogos reveladores e envolventes de Chico com seu guia espiritual Emmanuel. É aí onde tudo se encaixa, onde os valores da doutrina espírita são propagados, onde as perguntas são respondidas e os questionamentos silenciados.

Com a relação de Chico Xavier com seu mentor (Emmanuel não dava trégua e era bastante rude) o autor consegue fazer o leitor enxergar a grandeza de um homem, que abdicou ter uma vida normal para seguir sua missão, e isso tudo sem nenhum questionamento, num grande exemplo de resignação e dedicação. Mostra uma história cheia de dificuldades, onde qualquer ser humano se revoltaria e se viraria contra Deus. Chico Xavier não, ele consegue através da doação e do amor, com muita paciência, superar os obstáculos que se apresentam e levar a sua vida amando, acolhendo e enchendo de esperança os que sofrem.

É uma biografia bem escrita, sem ser piegas e sem bajulações. Não importa a religião ou a filosofia, a vida de Chico Xavier é um exemplo de confiança, de renúncia e de bondade há a ser seguido e admirado. A história é contada de forma emocionante e rica em humanidade, além de ser um exemplo de um belo trabalho. É um grande retrato jornalístico de um mito popular maior ainda. A obra consegue mostrar que é a solidariedade, o principal e mais bonito ensinamento do espiritismo, e não os fenômenos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário