domingo, 15 de novembro de 2009

Essa Bossa toda


É de sair cantando.

Peça conta a trajetória de uma amizade que se confunde com a história da música brasileira.

Por Joana Nigro



Valeu à pena! Essa foi à primeira frase que pensei quando as luzes do Teatro Guararapes, Centro de Convenções de Olinda, se acenderam por completo, indicando o fim de um belo espetáculo. “Tom e Vinícius, o musical” é mais uma, entre inúmeras homenagens feitas à bossa nossa, em 2008, quando o estilo completou 50 anos. Mas só veio chegar a terras pernambucanas agora e em pequena temporada (13, 14 e 15 de novembro).

Com texto de Daniela Pereira de Carvalho e Eucanaã Ferraz, a peça chega sem grandes inovações e de maneira bem despretensiosa, propositalmente. A única intenção é contar uma história já bastante conhecida, mesclando momentos da vida de Tom e de Vinícius com números musicais, e assim prender a atenção do público com a beleza das canções da dupla.

Tudo se passa num Rio de Janeiro belo e poético, dos anos 50 e 60, muito bem caracterizado pelo cenário de Ronald Teixeira, e o figurino de Marcelo Pies. Já a iluminação de Maneco Quinderé chega para dar um toque de charme, trazendo a tona um sentimento de saudade constante, de uma época vivida ou não. E todos esses elementos se juntam de forma harmônica com as interpretações das personagens, numa direção geral bem completa de Daniel Herz.

Marcelo Serrado, idealizador e produtor do espetáculo, encena um Tom Jobim meio caricato nos momentos musicais, mas nada que incomode ou comprometa a interpretação como um todo. Ele consegue passar a leveza e a timidez do verdadeiro Tom, conquistando bem o seu espaço. Thelmo Fernandes, por sua vez, que tinha tudo para soar de maneira falsa, graças à própria personalidade de Vinícius de Morais (com seu vocabulário recheado de personalidade e rico em diminutivos), arrasa. Com humor o ator se empresta a personagem, não “imita”; e consegue mostra um Vinícius bem verdadeiro, cheio de paixão.

Já na hora de cantar os dois atores deixam um pouco a desejar, só conseguem dar conta em canções mais simples, por isso, é nesse momento que a direção musical de Josimar Carneiro mostra a que veio. Quando é preciso soltar mesmo a voz, como na música Derradeira Primavera, a responsabilidade cai nas costas do restante do elenco, os compositores Tom e Vinícius cantam com suas fiéis intérpretes Nara Leão, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, fora as participações especiais, como a de Frank Sinatra, uma saída bem pertinente dada pela direção. Isso sempre acompanhados por músicos, tocando ao vivo, no palco. Criando assim a real magia da peça, as músicas.

Sem uma certa reflexão o texto pode até parecer pobre, pois não apresenta nada de novo, reúne trechos conhecidos e bastante exploradas da biografia dos compositores. Mas é como se Daniela Pereira de Carvalho e Eucanaã Ferraz colocassem os fatos e contos numa única linha de pensamento, é como se juntassem e organizassem tudo na cabeça do público. Saber e ver o que Tom e Vinícius estavam fazendo e pensando quando conceberam seus clássicos.

É tudo bem didático, quem nunca ouviu falar no encontro desses dois ícones da música brasileira, aprende várias coisas – desde como e onde tudo começou até a conquista do mercado internacional – pra quem é fã e vai só procurando por novidades, quebra a cara. Mas o emocionante é justamente a “mesmice”, a representação de uma rica e, ao mesmo tempo simples, amizade, que marcou tanto a história dos envolvidos como a de um país. É sentir os atores dando alma a uma época de felicidade na vida de Tom e Vinícius. É como se agora eu pudesse dizer “foi mágico, eu tava lá, eu vi”.


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