domingo, 29 de novembro de 2009

Independente

Uma Semente que já dá bons frutos





Semente de Vulcão revive o udigrudi setentista do Recife










Legenda: Integrantes da banda tocam maqueados

Por Thaís Nóbrega


O nome deve soar estranho para quem ouve assim, de primeira; afinal, Semente de Vulcão pode significar tanta da coisa, não é mesmo? Nome de planta, de chá, remédio para dor de barriga, entre tantas outras coisas. E, foi pensando nessa ubiqüidade que João Menelau, Ruan Andrade, Raone Nogueira (hoje, Marcelo Araújo), Rostan Júnior e Anderson Lopes, em meados de 2007, resolveram dar margem à imaginação, passando não somente pelo nome estranho, mas, também, por todo o conjunto que a obra compota.



Por se acharem esquisitos, os rapazes não abriram mão da excentricidade em tudo o que o show deles pode vir a ter: desde a performance no palco até a forma que as músicas são explicadas (porque sim, sim, elas precisam ser explicadas). Quem assiste ao show logo percebe o peso das influencias que o grupo assume: o udigrudi setentista que permeava pelas noites dos inferninhos recifenses.



Assim como diversos artistas da época, como Aratanha Azul e o talvez maior ícone dos anos 70 no recife, o Ave Sangria, os meninos trazem composições recheadas de misturas que muita gente pode torcer o nariz antes de ouvi-las, só pelo fato da ousadia de tê-las misturado, como é o caso do regionalismo (baião, xote), psicodelismo e das cirandas que fazem parte do repertório. Munida de instrumentos acústicos, como violões, craviolas e bandolins, a Semente de Vulcão consegue prender a atenção de todos que estão presentes desde o primeiro até o último acorde do show.
Aliás, um dos pontos altos da performance é a entrada deles no palco, onde para os mais desavisados há a surpresa: a identidade visual da banda é construída a partir de rostos pintados e vestuário emblemático, este que ganha um tom jocoso quando se olha para, talvez, a alma do vulcão, o vocalista João Menelau.



Menelau é um desses caras que tem alma de artista. Quando sobe no palco, não se importa em explicar para os presentes ali que nem eles sabem ao certo o significado do nome da banda. Dança, canta, esperneia, grita, xinga. Ele faz de tudo lá em cima. Com uma sandália gladiadora que vai – acreditem – até os joelhos, uma bermuda balonê, maquiagem a La Ney Matogrosso, João passeia entre os mais variados ritmos e letras que a Semente tem com tamanha maestria que vez ou outra é impossível não se pegar batendo palmas no meio da música, enquanto ele a incorpora.



As letras das músicas, praticamente todas escritas por ele – em parceria – também são alvo de comentários do cantor, que vez ou outra tenta explicar mais ou menos o porquê delas serem tão psicodélicas. É o caso da música 29 de Fevereiro, onde Menelau questiona a platéia acerca dessa data tão difícil de aparecer no calendário, aliando-a a questões contemporâneas, como o famoso bug do milênio e a questão de mistério acerca do tempo, etc.



Os outros integrantes da banda também sabem dar conta do recado: parecem pular de um instrumento para o outro, de um ritmo para o outro, de uma forma tão perfeita que a impressão que fica é que são músicos de qualidade. Afinal, aliar xote, ciranda e psicodelismo em uma única composição é dose!



É impossível deixar de notar a semelhança entre os Secos e Molhados e o show da Semente de Vulcão. A dança e as letras de cunho social, carregadas de sofismas e acidamente penetrantes são marcas registradas da imensa influência do grupo setentista na formação da Semente – além da vestimenta e da performance, digamos assim, exagerada.



O carisma que o grupo desperta logo é percebido ao se olhar para os lados: uns aplaudem, outros ficam estáticos a observar o show, outros cantarolam as letras que, talvez, nem entendam direito, mas já confiam na qualidade da banda. A verdade é que a Semente de Vulcão veio não só para criar mais um tag de música que não dá para se classificar (neste caso, regionalista psicodélica popularesca, talvez?), mas, principalmente, para aflorar o gosto musical dessa juventude de hoje, onde muitos não tiveram o prazer de conhecer uma parte muito boa da música produzida no Brasil/Pernambuco nos anos 70 e que hoje serve de inspiração para se fazer música boa, música de qualidade.

“Toda mentira que se conta tem verdade dentro; Tem covarde que um dia é valente; Tem tristeza funda que só cacimba; Tem amor que acaba de repente; Até chão seco um dia dá semente.” (Sérgio Ricardo)

Nenhum comentário:

Postar um comentário