sábado, 7 de novembro de 2009

Estréia

Abraços Partidos, emoções completas

Novo filme de Almodóvar combina entretenimento, arte e amor ao cinema


Por Rafaela Morais

Estréia no Brasil, no próximo dia 20, o novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar – com o atraso de sempre, já que entrou em cartaz na Europa e nos Estados Unidos em março deste ano. Los Abrazos Rotos (traduzido para o português como “Abraços Partidos”) é mais um drama almodovariano, desta vez com um triângulo amoroso no centro e uma narrativa dividida em dois tempos, com uma valorização extraordinária dos detalhes que compõem as imagens e o texto.

Abraços Partidos não pode ser comparado aos últimos filmes do cineasta, Volver – um filme delicado, sensível, capaz de valorizar as mulheres – e Má Educação, forte, marcante, injusto com o espectador despreparado. Deixando no passado suas tramas com temas mais difíceis, como mulheres enlouquecidas, encesto e estupro, Abraços Partidos gira em torno de relações humanas simples, como paixão, gratidão, ciúme e ausência. Pela quarta vez, o cineasta convoca a atriz Penélope Cruz, que, em uma atuação intensa, carismática e muitíssimo madura, faz valer o título de musa com o qual Almodóvar lhe presenteou.

O filme traz a história de Harry Caine (Lluís Homar), pseudônimo de um roteirista cego que, quando podia ver, era o diretor de cinema Mateo Blanco. Nessa época, ele se apaixonou por Lena (Penélope Cruz), uma jovem atriz, amante de um importante homem de negócios, Ernesto Martel (José Luis Gómez), que não permitiria que Lena o abandonasse facilmente. Fora à trama principal, há um pano de fundo relacionado ao cinema, uma vez que o papel de Mateo como diretor faz com que a boa parte do filme se desenvolva durante a filmagem do filme-dentro-do-filme “Chicas y maletas” (Garotas e Malas, em tradução livre).

Almodóvar cria um filme interessante e divertido, despertando, a cada momento - e nos momento certos - emoções das mais diversas no espectador. O diretor e roteirista se preocupa não só em contar a história, mas com como contá-la. Mais uma vez, trabalha com uma fotografia primorosa e uma trilha sonora planejada para mexer com os sentimentos do espectador. A sensação que temos é que o cineasta consegue transformar em imagem, som e palavras exatamente o que apareceu em sua cabeça no momento da concepção do filme.

A direção de fotografia é de Rodrigo Prieto, que assinou cenários de filmes como Brokeback Mountain e Babel. Em Abraços Partidos, Prieto deve ser visto como co-autor do roteiro, uma vez que a história contada perderia muito de sua expressão sem o trabalho precioso do artista. As cenas parecem, todas, material para um possível cartaz do filme, ressaltando-se os traços de pop art característicos do diretor. Alberto Iglésias é responsável pela música e consegue, por sua vez, conjugar o que se ouve com o que se vê com impressionante precisão.

Entre os pontos negativos do filme está o fato de que muitas das revelações que aparecem perto do final são bastante previsíveis. Além disso, o triângulo amoroso que seria o cerne do filme, em muitos momentos, parece um rocambolesco círculo de omissão, fatalidades e vingança. No mais, a escolha do tema e o desenvolvimento da trama parecem ter o objetivo de buscar um público além daquele fiel a Almodóvar: se o objetivo era esse, seguramente foi alcançado. O filme não é tão tenso ou complexo quanto costuma ser o gênero almodovariano. Abraços Partidos não é um filme feito apenas para os interessados em cinema artístico; quem vai pelo entretenimento tampouco se arrepende.

Nenhum comentário:

Postar um comentário