Angu no Teatro: receita certa para o sucesso
Grupo de teatro pode não agradar a todos, mas sabe bem o caminho para chegar lá.
Por Thaís Nóbrega

Legenda: Atores utilizam vários elementos para a caracterização das cenas
A grande surpresa, digamos assim, deste ano no Festival Palco Giratório, desenvolvido pelo SESC, foi a divulgação das apresentações do Coletivo Angu de Teatro com uma das suas peças mais vistas e comentadas: Angu de Sangue. A correria pelos ingressos começou logo, afinal, eles são velhos conhecidos dos pernambucanos (o coletivo é daqui mesmo, de Recife).
O Coletivo pernambucano Angu de Teatro existe desde 2003, quando as pesquisas para a montagem de Angu de Sangue começaram a tomar forma. Hoje, o elenco é formado pelos atores André Brasileiro, Arilson Lopes, Fábio Caio, Ivo Barreto, Vavá-Schön Paulino, Luciano Pinheiro, Tato Medini, Márcia Cruz (no lugar de Gheuza Sena, que foi morar no Equador) e Ceronha Pontes (que substitui a pernambucana Hermila Guedes, contratada pela Rede Globo). Além da montagem do sucesso de crítica e público Angu de Sangue, o coletivo encerra a sua trilogia com as peças Rasif – Mar que arrebenta e Ópera. Mas, falemos agora de uma das montagens mais controvérsias dos últimos tempos: Angu de Sangue.
O próprio nome já a condena como uma bricolagem de elementos: o angu presente no nome é o mesmo presente no s-angu-e. E é com esse espírito estimulante de desafio que toda a equipe do coletivo sai das coxias e toma conta do palco do teatro lotado. Para quem não leu o folheto explicativo da peça, vale dar uma olhadinha para não se perder em meio ao jogo de luzes e música que toma conta do palco: a peça contém dez contos baseados no livro homônimo do escritor pernambucano Marcelino Freire.
São contos que encarnam o humano, demasiado humano que existe em cada um de nós, em cada lugar da sociedade, em cada espaço das nossas consciências. Fala-se de uma realidade urbana onde o caos predomina, a sociopatia é marca registrada, o preconceito é peça fundamental em cada uma das estórias, além da solidão de cada um dos personagens que ali representam uma pequena grande parcela da nossa cidade/país/mundo.
Em muitos momentos, o público ali se desconcerta com a realidade nua e crua que é mostrada de forma tão sutil: através de prosas, poemas, músicas e até questionamentos diretos a eles, o coletivo mostra que sabe fazer bem o seu trabalho. Em um dado momento, acredite, ele consegue nos fazer questionar o porquê de estarmos ali assistindo ao mesmo espetáculo que vemos diariamente na própria esquina da nossa casa. E é isso que eles querem com Angu de Sangue: questionar a naturalidade cotidiana das nossas vidas.
O texto híbrido, que funde elementos muitas vezes tão trágicos que chegam a soar comicamente, é interpelado a todo momento com o jogo de luzes intimista e as músicas que parecem entrar em cena como um momento bônus para a nossa reflexão antes do próximo quadro da montagem. Aliás, o público raramente sai dela sem eleger o seu preferido, isso é fato.
A cenografia é tida como um dos pontos altos da peça: devido ao jogo de luzes e a mobilidade dos atores em cena, os únicos elementos espalhados em cada quadro são aqueles de grande apelo visual/simbólico (como é o caso da mulher que trabalha no lixão da muribeca e mora em uma geladeira), o que enriquece mais a montagem, visto que os atores podem realmente mostrar o seu talento, improvisando a cena e fazendo com que o público busque o entendimento dela apenas pela sua performance.
Outro ponto importante que é passível à destaque é a forma como a platéia é inserida na montagem: a todo momento, ela parece ser sim um personagem participante de toda a encenação; como se funcionasse como ouvinte, a outra parte do diálogo, os olhos que passam nas ruas e assistem àquilo tudo. O texto, nesse ponto, é fantástico. Afinal, ele mescla elementos que fazem com que ele continue sendo um monólogo, mas que haja uma outra parte silenciosamente atuante (a platéia). O único momento onde a platéia é realmente desmascarada desse drama “sou-não-sou-parte-da-peça” é no quadro “The End”, onde uma manicure divaga para um cliente (adivinha quem é?) sobre a suposta superioridade americana até na hora da morte. Pois bem, acertou quem disse que o cliente é alguém da platéia, puxado na hora, sem dó nem piedade.
Enfim, falar dos 80 minutos inexplicáveis por meio de palavras que Angu de Sangue proporciona se torna uma tarefa árdua e complicada. Muitos podem sair do teatro com a sensação de não saberem ao certo o que foram fazer ali; outros, possuírem a certeza de terem estado no lugar certo. O fato é que a provocação é o auge do espetáculo proporcionado pelo coletivo e a inquietação dos que ali estiveram é o resultado do seu trabalho. A verdade? É que, como já foi dito anteriormente, eles podem (ainda) não agradar a todos, mas (já) sabem sim o caminho para chegarem lá.
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