sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Lançamento

Sabina reaparece mais moderno com Vinagre y Rosas

Termina a longa espera, desde Alivio de Luto, pelo novo disco de canções originais do músico espanhol


Por Rafaela Morais

O fidelíssimo público de Joaquín Sabina não escutava uma música nova do cantor e autor – bem definido, em espanhol, pela palavra “cantautor” – há quatro anos. Jogado no mercado no início deste mês, Vinagre y Rosas chega com algumas novidades. Uma delas é estar disponível em duas versões: acompanhado de um livro, com desenhos e textos do cantor, ou apenas o CD. Aos 60 anos (que ele diria “cincuenta y diez”), este é o 19o. disco do cantor e traz 14 canções inéditas, em uma seleção surpreendentemente variada, e, como de costume, predominantemente calma. As inovações em ritmo e melodia, definitivamente, não chegam a romper com as características da obra do maestro, vem para enriquecê-la.


O “cantautor” é uma espécie de Chico Buaque ibérico: cantou sobre a ditadura, foi perseguido e exilado, cantou sobre mulheres, sobre boemia, amor e temas sociais. Tem um charme decadente que continua encantando aquelas que o conheceram jovem e muitas outras das novas gerações, que cresceram escutando as músicas do maestro. Sua voz rouca segue inconfundível, apesar de aparente conseqüência do vício que ele cantou que deixaria um dia (“Enciedo un cigarrillo y otro más/ Un día de estos he de plantearme muy seriamente dejar de fumar/ Con esa tos que me entra al levantarme...”).


Vinagre y Rosas começa com a nostálgica Tiramisú de Limón, seguida pela auto-biográfica Viudita de Clicquot, que faz uma viagem pelo tempo, dos seus 15 até seus 60 anos, em uma batida meio rock meio blues – recorrente no disco. A nostalgia continua com Cristales de Bohemia, uma homenagem a Praga, e, a seguir, está Parte Metereológico, uma das músicas mais alegres, ritmicamente, do álbum. Depois, uma leve valsa, Ay! Carmela, com letra dedicada a uma de suas filhas. Talvez por isso tenha me parecido a mais emocionante das músicas.


Em seguida, escutamos Virgen de la Amargura, umas das músicas mais diferentes do disco; Agua Pasada, misturando blues, tango e fado; Vinagre y Rosas, uma mistura de country e blues não tão agradável; Embustera, outra canção ritmicamente animada; Nombres Impropios, mais sofisticada, com algo de jazz; Menos dos Alas, uma rumba de homenagem ao poeta Ángel González; Crisis, um rock que chama atenção para a situação atual do mundo; Blues del Alambique, que traz de volta a nostalgia do começo do disco; e Violetas para Violeta, a faixa bônus, outro blues-rock de cunho social.


Para quem não conhece a obra do maestro, preciso avisar que existe, também em Sabina, o que seria, para nós brasileiros, o velho problema da angústia excessiva das músicas “hispanohablantes”. Há uma melancolia e uma tristeza muito mais profundas do que aquelas cantadas na música popular brasileira. Temo que talvez seja algo, de fato, cultural, mas que, devo concordar, faz com que os sentimentos cantarolados pareçam demasiadamente intensos e as analogias utilizadas na tentativa de explicá-los (que já seriam, invariavelmente, inexplicáveis) nos pareçam piegas ou, ainda, deprimentes.


Análises culturais a parte, o álbum é justo, sensível e, claro, passional, como costuma ser Sabina. Para quem gosta, como eu, pode se tornar parte do background oficial de momentos de relaxamento, estudo, trabalho ou trânsito, liberando a mente e a voz para palavras fortes de versos que fazem pensar. Mesmo aqueles que não curtem o gênero devem lembrar das palavras “Vinagre y Rosas” quando sentirem necessidade de uma bela trilha sonora para os dias de fossa.

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