domingo, 29 de novembro de 2009

MELODY


Plágio ajuda a promover o tecnobrega


Sucesso da Djavú abre espaço para bandas paraenses



Por Blenda Souto Maior



Depois do fenômeno musical impulsionado pela indústria pirata, e ironicamente chamado de Djavú, todos agora conhecem o tecnobrega. Tá todo mundo cantando ‘rubi nave do som’, e o pior, sem nem saber o significado da expressão e achando engraçada a ‘letra desconexa’.


O sucesso da Banda Djavú foi verdadeiramente meteórico. Apesar de não ser o tecnobrega legítimo do estado do Pará, mas uma cópia vinda diretamente da Bahia, a banda é responsável pela popularização do ritmo Brasil a fora, tocando, ou tentando tocar o tecnomelody, uma vertente mais lenta e melódica do tecnobrega. O sucesso é tão grande que a Djavú, que estourou no mercado no final de 2008, já vendeu milhares de CDs piratas, já fez turnês pelo país inteiro e tem uma música na trilha sonora da novela ‘Bela a feia’ da Rede Record. Mas, na verdade, a Banda Djavú nada mais é do que uma compilação de várias cópias de bandas do Pará, como a Banda Ravelly, uma das principais lesadas. Apesar do plágio, a Djavú abriu caminho para outras bandas e tornou popular um dos fenômenos musicais mais ricos e interessantes do Brasil, o tecnobrega.


Ok, todo mundo conhece a Banda Djavú, mas será que todos sabem realmente o que é o tal do tecnobrega? Então vamos lá. O tecnobrega é um ritmo original da periferia do estado do Pará, surgido lá na década de 60, com influência da jovem-guarda, com guitarra, baixo e bateria. É uma evolução do brega, que usa muita tecnologia e mistura a batida do brega e o som eletrônico dos samplers e aparelhagens. O tecnobrega é um fenômeno de massa, nasceu na periferia e agora está se popularizando em todo o país.


O ritmo é acelerado, envolvente e dançante, as músicas são uma mistura de teclado, guitarra e do som eletrônico do tecno, e tudo acompanhado de muita tecnologia, lap tops, raios lasers e cdjs. As letras basicamente falam de sexo, muito sexo, e dos elementos pertencentes ao universo do tecnobrega, como as aparelhagens, que são as equipes de som que tocam nas festas paraenses. A dança é uma mistura do brega tradicional com coreografia mirabolante e gestos eróticos. Tudo isso somado a roupas prateadas, cabelos coloridos e fogos de artifício. Já deu pra perceber a diversidade que é o tecnobrega, não?


O termo “rubi nave do som”, da música ‘Rubi’, que foi gravada por diversas bandas além da Djavú, faz referencia exatamente a uma das aparelhagens mais famosas e tradicionais de Belém, a Rubi, onde os DJs tocam numa plataforma, no formato da pedra rubi, fazendo parecer uma nave.


O tecnobrega não é somente um ritmo, uma música, é um estilo, um comportamento. É um conjunto de códigos socias. A Banda Djavú, apesar de ser uma cópia das bandas paraenses e sem os elementos típicos, conseguiu difundir o estilo, revelou um universo cultural, abrindo espaço no mercado do sudeste para as bandas que realmente tocam o tecnobrega, as bandas do Pará. Só resta saber se isso realmente vai acontecer, ou se a Banda Djavú vai ficar com todo o mérito.

SHOW

legenda: vanessa solta a voz no Teatro Guararapes
Vaneguinha esbanja simpatia no Recife

A cantora agradou a todos e fechou a apresentação cantando manguetown

por Duda Martins

Com grande presença de palco e portadora da limpa e inconfundível voz Vanessa da Mata não deixou a desejar na apresentação de sexta-feira, no Treatro Guararapes. Um dos maiores teatros de Recife parecia pequeno pra uma mutidão de gente que gritava alto e desafinado: "Tudo que quer me daaaaar, é demaaaais, é pesadoo, não há paaaz..."

Duas horas de show foi o suficiente pra perceber que a "neguinha" tem futuro na cena artística e que o povo recifense a acolhe de braços e sorrisos abertos. Pudera, Vanessa também não poupa sorrisos e esbanja simpatia e personalidade sem o seu "joãozinho".

Além das músicas próprias- de uma originalidade sem igual, diga-se de passagem, a cantora interpretou músicas dos Saltimbancos (a dos gatos), Por Enquanto (Cássia Eller) e Manguetown, que levou a galera ao delírio ("Fui no mangue catar lixo, pegar carangueijo, conversar c'urubú!")

Deu bom pra sexta à noite.

MPB


Ney Matogrosso e suas metamorfoses

Cantor volta a encarnar o bom e velho Ney, ousado e pop, num projeto que subverte a indústria fonográfica.

Por Joana Nigro

Mais do que mero título de uma canção, "Inclassificáveis", nome do CD e DVD lançado em 2008, é um grande exemplo de como um artista consegue manter uma identidade através de belas transformações e inovações. Ney, com seus 67 anos e 36 de carreira, mostra, mais uma vez, porque é chamado de camaleão.

Vindo de projetos mais comedidos, como os dedicados a Carmen Miranda e Cartola, ele reacende sua chama, mostra um cantor provocante e ousado, onde aparece coberto de brilhos, que no decorrer do show se transformam em outros, a partir de cada troca em cena de adereços e peças. Uma recuperação do Ney “exótico” dos anos de 1970 e 80, época que encarnava um pavão misterioso andrógino e espalhafatoso.

E essa é a grande diferença entre o CD e o DVD. Embora banda e arranjos sejam os mesmos, o Ney do CD é mais suave (é perceptível a procura pelo comedimento) do que o artista performático e provocativo do palco. Mas, por mais que pareça não se vê ligação entre seu atual momento e o início da carreira, no Secos & Molhados. Há um frescor, um ar de coisa nova, de inspiração.

E esse frescor é segurado pelo belíssimo repertório, além da voz singular do cantor. As versões bolero-rock para a música “Veja bem, meu bem” de Marcelo Camelo e a forte faixa-título “Inclassificáveis” de Arnaldo Antunes são os grandes destaques de uma espinha dorsal formada por "O Tempo Não Pára" (Cazuza/Arnaldo Brandão), "Mal Necessário" (Mauro Kwitko), "Coisas da Vida" (Alzira Espíndola/Itamar Assumpção), "Ode aos Ratos" (Edu Lobo/Chico Buarque) e "Divino Maravilhoso" (Caetano Veloso/Gilberto Gil), músicas que, de alguma forma, tocam em temas sociopolíticos.

Mas nada traduz tão bem a filosofia de vida de Ney Matogrosso como o refrão da música Lema, de Carlos Rennó e Lokaua Kanza, que versa: “Envelhecer certamente com a mente sã / me renovando dia a dia a cada manhã / tendo prazer me mantendo com o corpo são / eis o meu lema, meu emblema, eis o meu refrão”. É a revelação de tudo ali representado.

O mais interessante é notar o movimento contrário que Ney realizou, pois, em geral, um álbum é lançado e depois passa a ser divulgado pela turnê. Neste projeto, decidiu primeiro estrear o show para depois entrar em estúdio e gravar as canções escolhidas, todas elas com uma pegada bem marcante de guitarras e violão, para depois lançar CD e DVD. Talvez assinalando o que há anos já se discute: o fim da indústria fonográfica tal qual nós a conhecemos.

A aproximação com o pop faz com que Ney consiga dialogar com esferas mais recentes da música brasileira. E revela que, fazendo jus ao nome do show, rotular seu trabalho continua sendo um desafio.


Independente

Uma Semente que já dá bons frutos





Semente de Vulcão revive o udigrudi setentista do Recife










Legenda: Integrantes da banda tocam maqueados

Por Thaís Nóbrega


O nome deve soar estranho para quem ouve assim, de primeira; afinal, Semente de Vulcão pode significar tanta da coisa, não é mesmo? Nome de planta, de chá, remédio para dor de barriga, entre tantas outras coisas. E, foi pensando nessa ubiqüidade que João Menelau, Ruan Andrade, Raone Nogueira (hoje, Marcelo Araújo), Rostan Júnior e Anderson Lopes, em meados de 2007, resolveram dar margem à imaginação, passando não somente pelo nome estranho, mas, também, por todo o conjunto que a obra compota.



Por se acharem esquisitos, os rapazes não abriram mão da excentricidade em tudo o que o show deles pode vir a ter: desde a performance no palco até a forma que as músicas são explicadas (porque sim, sim, elas precisam ser explicadas). Quem assiste ao show logo percebe o peso das influencias que o grupo assume: o udigrudi setentista que permeava pelas noites dos inferninhos recifenses.



Assim como diversos artistas da época, como Aratanha Azul e o talvez maior ícone dos anos 70 no recife, o Ave Sangria, os meninos trazem composições recheadas de misturas que muita gente pode torcer o nariz antes de ouvi-las, só pelo fato da ousadia de tê-las misturado, como é o caso do regionalismo (baião, xote), psicodelismo e das cirandas que fazem parte do repertório. Munida de instrumentos acústicos, como violões, craviolas e bandolins, a Semente de Vulcão consegue prender a atenção de todos que estão presentes desde o primeiro até o último acorde do show.
Aliás, um dos pontos altos da performance é a entrada deles no palco, onde para os mais desavisados há a surpresa: a identidade visual da banda é construída a partir de rostos pintados e vestuário emblemático, este que ganha um tom jocoso quando se olha para, talvez, a alma do vulcão, o vocalista João Menelau.



Menelau é um desses caras que tem alma de artista. Quando sobe no palco, não se importa em explicar para os presentes ali que nem eles sabem ao certo o significado do nome da banda. Dança, canta, esperneia, grita, xinga. Ele faz de tudo lá em cima. Com uma sandália gladiadora que vai – acreditem – até os joelhos, uma bermuda balonê, maquiagem a La Ney Matogrosso, João passeia entre os mais variados ritmos e letras que a Semente tem com tamanha maestria que vez ou outra é impossível não se pegar batendo palmas no meio da música, enquanto ele a incorpora.



As letras das músicas, praticamente todas escritas por ele – em parceria – também são alvo de comentários do cantor, que vez ou outra tenta explicar mais ou menos o porquê delas serem tão psicodélicas. É o caso da música 29 de Fevereiro, onde Menelau questiona a platéia acerca dessa data tão difícil de aparecer no calendário, aliando-a a questões contemporâneas, como o famoso bug do milênio e a questão de mistério acerca do tempo, etc.



Os outros integrantes da banda também sabem dar conta do recado: parecem pular de um instrumento para o outro, de um ritmo para o outro, de uma forma tão perfeita que a impressão que fica é que são músicos de qualidade. Afinal, aliar xote, ciranda e psicodelismo em uma única composição é dose!



É impossível deixar de notar a semelhança entre os Secos e Molhados e o show da Semente de Vulcão. A dança e as letras de cunho social, carregadas de sofismas e acidamente penetrantes são marcas registradas da imensa influência do grupo setentista na formação da Semente – além da vestimenta e da performance, digamos assim, exagerada.



O carisma que o grupo desperta logo é percebido ao se olhar para os lados: uns aplaudem, outros ficam estáticos a observar o show, outros cantarolam as letras que, talvez, nem entendam direito, mas já confiam na qualidade da banda. A verdade é que a Semente de Vulcão veio não só para criar mais um tag de música que não dá para se classificar (neste caso, regionalista psicodélica popularesca, talvez?), mas, principalmente, para aflorar o gosto musical dessa juventude de hoje, onde muitos não tiveram o prazer de conhecer uma parte muito boa da música produzida no Brasil/Pernambuco nos anos 70 e que hoje serve de inspiração para se fazer música boa, música de qualidade.

“Toda mentira que se conta tem verdade dentro; Tem covarde que um dia é valente; Tem tristeza funda que só cacimba; Tem amor que acaba de repente; Até chão seco um dia dá semente.” (Sérgio Ricardo)

Hip Hop

Black Eyed Peas investe pesado nas batidas eletrônicas

Novo trabalho do grupo é repleto de músicas dançantes

Em seu quinto álbum, os Black Eyed Peas deixam o hip hop um pouco de lado



Por Thaisa Lisboa


Caro leitor, antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que, quando soube que iria fazer uma crítica sobre música, pensei em fazer uma homenagem a um primo meu (muito querido, por sinal!). Ele curte umas bandas de post-hardcore/eletrônica, muito interessantes como, por exemplo, os americanos do Attack Attack!

Entretanto, desde quando ouvi o novo cd “The E.N.D (Energy Never Dies)” dos também garotos da terra do Tio Sam, o Black Eyed Peas, os meus dedos, em sintonia, com os meus neurônios, começaram a se movimentar em torno dos novos single-hits da banda. O título “The E.N.D é uma alusão às especulações de que William Addams, Fergie, Tabbo e Apl iriam desfazer o grupo e seguir carreira solo. Neste novo álbum, lançando em junho último, os Black Eyed Peas deixaram o estilo hip hop um pouco de lado e se deixaram levar pelas bandidas eletrônicas. Uma aposta que vem dando certo. Irei me ater apenas às músicas “Boom Boom Pow!” e “I gotta a feeling”, grandes destaques do álbum.

Quando escutei “Boom Boom Pow!”, o primeiro single, não acreditava que era uma música do grupo devido à forte presença do eletrônico. A mistura de ‘pop-eletrônica’, mesclado a um quê de ‘funk’, torna a música bem excitante. As atuações de William e Apl são impecáveis. Dá para sentir o ‘poder’ das suas vozes. Já Fergie canta deslumbrantemente, tornando sua participação sexy, como de praxe. A única parte da música que deixou um pouco a desejar é o final, pois não entendi muito bem as últimas batidas. Analisando a letra da canção, vê-se que o lado lírico não é o forte do grupo. Fazendo uma livre tradução, é como se os integrantes tivessem o poder, como se o estilo deles fosse melhor que o dos outros. Mas como consumimos a letra em sua forma bruta, é bom se deixar levar pelo ritmo dos Black Eyed Peas e se jogar na pista de dança!

I gotta a feeling” chamou minha atenção pelo ritmo e pela harmonia. Essa também é o tipo de música feita para você dançar. E essa é a proposta dos Peas! Até para aqueles que não curtem muito a banda se deixam envolver com ela. O que estou querendo dizer é que, quando “I gotta a feeling” começa a tocar, os pés se mexem, incontrolavelmente, depois os quadris vão junto, e quando a pessoa percebe, já está dançando! Nessa música, o DJ francês David Guetta faz a fusão de hip hop com seu som eletrônico, o que a torna diferente das outras composições. Além disso, Guetta incrementa uma pequena batida insana de guitarra.

Se formos analisar a letra de “I gotta a feeling”, para alguns ela possa parecer boba. Porém, é preciso ver a mensagem que os Black Eyed Peas querem passar. Esta música é dedicada a todos que estão prontos para sair e se divertir ou, apenas, para ‘relaxar’ após um estressante dia de trabalho. O vídeo clipe de “I gotta a feeling” está em pleno acordo com o verso "tonight's gonna be a good night" ("esta noite será uma boa noite"), ou seja, jovens estão prontos para irem a uma festa e os Peas mostram que podem começá-la ainda mais cedo.

Em I gotta a feeling, todos os integrantes têm atuações fascinantes. Como a grande maioria das músicas, William e Fergie se sobressaem mais. Ambas as vozes são marcantes. É preciso, pois, notar a clareza da letra do hit, isto é, de energia positiva, festa, dança e alegria.

Termino este post com um pequeno conselho: caro leitor, se você for fazer uma festa e quiser que ela 'bombe', além de você selecionar as suas músicas preferidas não deixe de colocar na lista Boom Boom Pow! e I gotta a feeling. Garanto que seus convidados irão adorar e você vai A-R-R-A-S-A-R na pista de dança! E se os Black Eyed Peas estavam pensando em se separarem, acho que este não é o momento adequado, pois, pelo visto, ainda há muito sucesso a ser conquistado. Sorte para eles!